A Zona da Mata Norte de Pernambuco não costuma aparecer entre os primeiros destinos lembrados por quem está planejando um mochilão pelo estado. Entre Recife e o litoral norte, porém, existe uma região onde o barro, os engenhos de cana-de-açúcar e as manifestações da cultura popular ainda fazem parte da rotina de muitas comunidades.
Tracunhaém e Nazaré da Mata são duas cidades que podem ser conhecidas em uma viagem curta, mas oferecem experiências bastante diferentes de um roteiro convencional pelo Nordeste. Em Tracunhaém, o principal motivo da visita é a cerâmica produzida pelos artesãos locais. Em Nazaré da Mata, o maracatu de baque solto ocupa um espaço central na identidade cultural do município.
Eu considero as duas cidades especialmente interessantes para quem viaja de forma independente e quer incluir no roteiro um lado de Pernambuco que não aparece nos circuitos mais conhecidos.
Tracunhaém começa pelo barro
Tracunhaém é conhecida como a Terra do Barro. A produção de cerâmica é uma das principais referências culturais do município, e a própria prefeitura destaca a possibilidade de visitar ateliês, acompanhar a produção e comprar peças diretamente dos artesãos.
O barro está presente em diferentes etapas do trabalho dos artesãos. Há peças utilitárias, esculturas, imagens religiosas e figuras da cultura popular. Por isso, visitar um ateliê permite entender melhor o processo e perceber que existem técnicas e estilos diferentes entre os artistas.
A cidade também tem uma trajetória importante ligada a grandes nomes da cerâmica pernambucana. Mestre Nuca, por exemplo, foi registrado como Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2005. Seu trabalho ficou especialmente conhecido pelos leões de barro, cuja produção começou a ganhar sua forma característica a partir da década de 1960.
Outro nome importante é Zezinho de Tracunhaém, registrado como Patrimônio Vivo em 2007. A trajetória dele também mostra como o trabalho com barro se desenvolveu na região a partir de experiências de trabalhadores que encontraram na cerâmica uma atividade artística e profissional.
Para o mochileiro, o melhor aproveitamento da visita não está em tentar cumprir uma lista enorme de pontos turísticos. Eu reservaria algumas horas para caminhar pela cidade, conhecer o Centro de Produção Artesanal e procurar ateliês onde seja possível conversar diretamente com os artesãos.
O maracatu rural começa a fazer sentido em Nazaré da Mata
Depois de Tracunhaém, o deslocamento para Nazaré da Mata é curto. As duas cidades estão próximas e podem ser combinadas tranquilamente no mesmo roteiro.
Nazaré da Mata tem uma relação ainda mais direta com o Maracatu de Baque Solto, também conhecido como maracatu rural. O Iphan explica que essa manifestação está associada principalmente ao ciclo da cana-de-açúcar da Zona da Mata Norte e que seus grupos mais antigos foram formados por trabalhadores rurais e cortadores de cana entre o final do século XIX e o início do século XX.
É importante fazer essa distinção porque o maracatu rural não é a mesma manifestação que o Maracatu Nação, também chamado de baque virado.
O baque solto reúne música, dança e poesia e tem entre seus personagens mais conhecidos o caboclo de lança, com sua gola bordada, lança e demais elementos da indumentária. O conjunto visual é impressionante, mas existe muito mais acontecendo por trás das roupas e dos cortejos.
O Maracatu de Baque Solto foi reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2014.
É por isso que Nazaré da Mata não deve ser tratada apenas como uma parada para assistir a um desfile. A cidade ajuda a entender a relação entre a manifestação cultural, a história da região canavieira e as comunidades que mantêm esses grupos funcionando.
Se puder escolher a época, vá no Carnaval
O período mais evidente para conhecer o maracatu rural em Nazaré da Mata é o Carnaval.
O município realiza tradicionalmente o Encontro dos Maracatus de Baque Solto durante a segunda e a terça-feira de Carnaval. Em 2025, a programação reuniu mais de 30 grupos de Nazaré da Mata e de outros municípios da região.
Em 2026, a dimensão do evento foi ainda maior. A programação divulgada pela prefeitura informou a participação de 70 nações de baque solto e mais de 10 mil brincantes, com concentração no Parque dos Lanceiros e cortejo até a região central da cidade.
Nesse período, a experiência muda completamente. Os grupos ocupam as ruas, os caboclos de lança aparecem com suas golas coloridas e o som dos instrumentos acompanha os cortejos.
Para quem nunca viu um maracatu rural de perto, essa é provavelmente a maneira mais fácil de compreender a força da manifestação.
Mas existe uma desvantagem: Carnaval também significa maior procura por hospedagem e mais movimento na cidade. Para um mochilão econômico, isso precisa entrar no planejamento com antecedência.
Um roteiro possível para dois dias
Se a ideia é fazer a viagem sem pressa excessiva, eu organizaria os dois dias de maneira simples.
Dia 1 — Tracunhaém
Chegue pela manhã e concentre o primeiro período do dia na cidade. Caminhe pelo centro, procure os espaços de produção artesanal e visite os ateliês disponíveis.
Reserve tempo para conversar com os artesãos e observar o processo de produção. Se pretende comprar cerâmica, deixe espaço na mochila desde o início. Dependendo da peça, transportar o objeto pode ser mais complicado do que parece.
À tarde, continue conhecendo a produção local ou visite outros espaços culturais da cidade.
Dia 2 — Nazaré da Mata
Comece o dia em Nazaré da Mata e procure conhecer a cidade antes dos horários de maior movimento.
Se a viagem coincidir com o Carnaval, o roteiro deve ser adaptado à programação oficial do ano. Em 2026, por exemplo, os cortejos tiveram concentração no Parque dos Lanceiros e seguiram em direção à Praça João XXIII, no centro.
Fora do Carnaval, a experiência é diferente. Nesse caso, vale acompanhar a programação cultural do município e procurar informações diretamente com os grupos e equipamentos culturais locais antes de viajar. Não é seguro presumir que haverá uma apresentação de maracatu em qualquer dia do ano.
Dá para fazer a viagem por conta própria?
Sim. E, para o perfil de viagem que proponho no Foco Um, eu não vejo necessidade de contratar uma agência apenas para conhecer essas duas cidades.
O ponto mais importante é entender que você está visitando municípios pequenos, e não destinos estruturados para receber grandes fluxos turísticos durante todo o ano.
Barro e maracatu em uma mesma viagem
O que torna esse roteiro interessante é justamente a diferença entre as duas experiências.
Tracunhaém permite entrar em contato com uma tradição artesanal que transformou o barro em uma das principais marcas culturais do município. Nazaré da Mata apresenta uma manifestação cultural ligada à história da Zona da Mata Norte e que continua ocupando as ruas, especialmente durante o Carnaval.
Em apenas dois dias, o viajante consegue sair de um ateliê de cerâmica e terminar a viagem diante de um cortejo de maracatu rural. Aproveite!







