A primeira coisa que chama atenção quando você sobe de Fortaleza em direção à Serra de Baturité é a mudança de temperatura. O Ceará que ficou para trás é quente e litorâneo. Algumas dezenas de quilômetros depois, a paisagem ganha verde, curvas de serra e, dependendo da época, uma neblina que parece deslocada do estado que você acabou de deixar.
Foi esse contraste que me fez olhar para Guaramiranga de outra maneira. A cidade não precisa competir com as praias cearenses. A experiência é outra: café, mata, pequenas cidades serranas e uma história que ainda aparece nas propriedades rurais.
Em quatro dias, dá para conhecer parte dessa região. A proposta é fazer a viagem em um movimento gradual pela serra. O roteiro começa em Baturité, onde a história do café e da antiga ferrovia ajudam a entender a região, sobe para Guaramiranga e seus arredores, segue para Mulungu para conhecer uma propriedade produtora e termina em Pacoti, com uma passagem pelo Sítio São Luís e pelo Pico Alto.
O café explica boa parte da Serra de Baturité
Antes de visitar uma fazenda, vale entender por que existe café naquela serra.
Segundo registros históricos reunidos sobre a região, o cultivo chegou à Serra de Baturité em 1829. A produção ganhou importância econômica e deixou marcas que ainda podem ser percebidas em antigas propriedades, construções e caminhos utilizados para escoar a produção.
A história também ajuda a explicar a existência da antiga ferrovia de Baturité. A estação ferroviária, inaugurada no século XIX, estava ligada justamente ao transporte da produção agrícola da serra.
Por isso, eu começaria a viagem por Baturité, antes de subir definitivamente para Guaramiranga.
Baturité antes das fazendas
O Museu de Baturité funciona no prédio da antiga estação ferroviária e ajuda a colocar a história do café em perspectiva. Em vez de chegar diretamente a uma propriedade produtora e apenas conhecer o processo de cultivo, você entende primeiro por que aquela atividade teve tanta importância para a região.
Depois, dá para seguir viagem pela serra.
A mudança de paisagem é gradual. O comércio urbano vai ficando para trás e aparecem trechos de mata, propriedades rurais e estradas sinuosas. Para quem está acostumado a conhecer o Ceará pelo litoral, essa subida já funciona como parte da experiência.
Guaramiranga não é apenas o centrinho
Guaramiranga é pequena e o centro pode ser conhecido tranquilamente a pé. Há restaurantes, cafés, bares, lojas e espaços culturais concentrados nas proximidades da praça principal.
Os arredores guardam trilhas, propriedades rurais e áreas de mata. É também onde a história do café passa a fazer parte da paisagem.
Uma visita interessante é ao Sítio Águas Finas, propriedade que recebe turistas para conhecer a produção de café e caminhar pela área cultivada. O passeio dura aproximadamente duas horas e passa por uma área de 21 hectares, com parte dela dedicada ao cultivo. A visita é conduzida pelos responsáveis pela propriedade e precisa ser agendada previamente.
Eu reservaria esse horário antes de sair de Fortaleza. Não vale a pena correr o risco de chegar à serra e descobrir que a visita daquele dia já está completa. Seria uma maneira desnecessária de perder uma das experiências mais interessantes da região.
O café cultivado sob a mata
Uma característica que merece atenção é o chamado café arábica sombreado.
Na Serra de Baturité, o café é cultivado em áreas onde a vegetação ajuda a formar sombra para as plantas. É uma prática diferente das grandes áreas de cultivo a pleno sol encontradas em outras regiões produtoras.
Quando você visita uma propriedade, essa diferença deixa de ser apenas uma informação sobre agricultura. Ela aparece no próprio ambiente: café crescendo em meio à vegetação, relevo irregular e um clima muito diferente do sertão mais seco.
É também uma boa oportunidade para provar o produto no próprio lugar onde é produzido.
Mulungu e uma fazenda centenária
Mulungu fica próximo de Guaramiranga e pode entrar no terceiro dia da viagem.
O Sítio São Roque é uma das propriedades associadas à tradição cafeeira da região e trabalha com café arábica sombreado. A visita permite conhecer o cultivo, a história da propriedade e experimentar o café produzido ali.
É uma segunda oportunidade de conhecer o cultivo de café na serra. Eu gosto desse tipo de passeio porque ele não depende apenas da paisagem bonita. Depois de conhecer uma fazenda, você passa a enxergar os outros cafezais da estrada de outra maneira.
Para quem gosta de caminhar, existem ainda trilhas entre Guaramiranga, Mulungu e Pacoti. No entanto, atenção, pois algumas exigem mais disposição e conhecimento prévio do percurso.
Pacoti e o encerramento no alto da serra
Pacoti pode fechar o roteiro com uma experiência diferente.
O Sítio São Luís integra a Rota Verde do Café e recebe visitantes mediante agendamento, principalmente nos fins de semana.
Depois, o roteiro pode terminar no Pico Alto. Com cerca de 1.114 metros de altitude, o Pico Alto é um dos pontos mais elevados da Serra de Baturité. A paisagem aberta permite observar a extensão do maciço e entender, visualmente, o caminho percorrido nos dias anteriores.
É um daqueles lugares que não se pode perder.
Lembre-se
Não faça a mala pensando no Ceará que aparece nos cartões-postais. Aqui a proposta é outra. Estamos falando de uma região serrana, onde é possível ser mais frio em algumas épocas. Além disso, obviamente, os passeios exigem mais disposição para caminhada. Esteja preparado para isso.
Quatro dias são suficientes?
Para conhecer a Rota Verde do Café sem pressa, quatro dias formam um bom primeiro contato. O roteiro pode começar em Baturité, passar por Guaramiranga e Mulungu e terminar em Pacoti, combinando história, propriedades produtoras, pequenas cidades e paisagens de serra.
A graça da Serra de Baturité está justamente na mudança de ritmo. Você sai de Fortaleza, sobe a serra, encontra outro clima, conhece uma história agrícola que começou há quase dois séculos e termina a viagem olhando a paisagem de cima.
Para quem já conhece o Ceará pelo litoral, é uma maneira completamente diferente de experimentar o estado.
