O que vou descrever a seguir acontece com frequência em um mochilão solo: você está sentado em um restaurante esperando o almoço chegar. Não há ninguém para conversar. O celular continua no bolso. Pela janela, uma rua tranquila leva até a praia.
Então, um pensamento surge: será que a viagem deveria estar sendo mais emocionante do que isso?
O silêncio aparece muito mais do que a maioria imagina. Ele está nas refeições, nas caminhadas logo cedo, nas horas de ônibus entre uma cidade e outra e nas esperas por uma van ou uma balsa. Quem nunca viajou sozinho costuma interpretar esses momentos como um sinal de que falta alguma coisa.
Na verdade, eles fazem parte da experiência.
O silêncio
A rotina normalmente deixa pouco espaço para ficar sem fazer nada. Trabalho, mensagens, trânsito e compromissos ocupam praticamente todo o dia. No mochilão solo acontece o contrário. Há períodos em que não existe nenhuma decisão urgente ou alguém para conversar.
No começo isso causa estranhamento.
Depois de alguns dias, o silêncio deixa de parecer um vazio e passa a ser apenas o ritmo natural da viagem. Você percebe que não precisa preencher cada intervalo com alguma atividade para sentir que está aproveitando o destino.
Os deslocamentos também fazem parte da experiência
Viajar pelo Nordeste por conta própria significa passar horas em ônibus, vans, barcos e balsas. Quem olha apenas para o destino costuma enxergar esses deslocamentos como tempo perdido.
Mas eles mostram um Nordeste que dificilmente aparece nas fotos de viagem.
Pela janela passam pequenas comunidades, feiras montadas na beira da estrada, cidades onde o ônibus para apenas alguns minutos e paisagens que mudam lentamente entre o litoral e o interior.
Comer sozinho parece estranho
Entrar sozinho em um restaurante costuma causar mais desconforto antes da viagem do que durante ela.
A impressão de que todos estão olhando para quem ocupa uma mesa sozinho desaparece rapidamente. Na prática, cada pessoa está ocupada com a própria refeição.
Quando essa preocupação passa, sobra espaço para observar detalhes que normalmente ficariam escondidos pela conversa de um grupo. O sotaque do garçom muda de cidade para cidade. O movimento da rua muda conforme o horário. O prato chega, você percebe os sons do restaurante e começa a prestar atenção no que acontece ao redor.
A refeição deixa de ser um momento que precisa ser preenchido e passa a fazer parte da própria experiência de estar naquele lugar.
As manhãs silenciosas revelam um Nordeste diferente
Quem acorda cedo durante um mochilão costuma encontrar uma paisagem completamente diferente daquela do restante do dia.
Antes das barracas abrirem, pescadores recolhem as redes, moradores caminham pela orla e o movimento ainda é pequeno.
Não é preciso fazer nada especial nesse horário. Caminhar alguns minutos sem o celular na mão já é suficiente para perceber detalhes que desaparecem quando o destino fica cheio.
É um momento interessante para ter a experiência local do destino.
Nem todo silêncio precisa ser preenchido
A reação mais comum quando o silêncio aparece é pegar o celular. Não necessariamente para falar com alguém, mas para abrir uma rede social, responder mensagens ou simplesmente ocupar os minutos que ficaram livres.
Esse movimento é quase automático. No entanto, enquanto a atenção fica na tela, a cidade continua acontecendo. O barco termina a travessia, o ônibus passa por outra comunidade do interior, a praça onde você está começa a ganhar movimento e a conversa entre moradores segue sem que você perceba. Você se fecha para uma conversa espontânea que poderia acontecer.
Portanto, espere alguns minutos antes de desbloquear o telefone. Nem sempre o impulso de procurar distração precisa ser atendido imediatamente. Na maioria das vezes viajar sozinho faz com que você aprenda a gostar da sua própria companhia.
Esperar também faz parte do mochilão
Quem viaja pelo Nordeste usando transporte público aprende rapidamente que nem tudo acontece no horário planejado.
Há vans que saem apenas quando completam a lotação. Barcos dependem das condições da maré. Em cidades menores, o próximo ônibus pode demorar algumas horas.
Quem encara essas esperas como tempo desperdiçado costuma terminar o dia mais ansioso. Quem aceita que elas fazem parte da logística do interior consegue lidar melhor com esses intervalos sem a sensação de que está perdendo tempo.
Você pode simplesmente observar o movimento, organizar as próximas horas, descansar ou deixar o tempo passar sem transformar cada minuto em uma atividade. Nem toda espera precisa resultar em uma descoberta. Às vezes, ela é apenas uma parte da viagem que precisa ser vivida.
Silêncio não é a mesma coisa que solidão
Existe uma diferença entre estar sozinho por algumas horas e sentir que a viagem perdeu o sentido.
Uma caminhada sem conversa, uma refeição sozinho ou algumas horas esperando o próximo transporte não significam necessariamente que alguma coisa está errada. São apenas períodos em que você não está dividindo a experiência com outra pessoa.
O problema aparece quando você interpreta automaticamente esse silêncio como sinal de que deveria estar fazendo outra coisa.
Nem todo intervalo precisa ser preenchido. Em uma viagem solo, aprender a permanecer nesses momentos sem tratá-los como um problema também faz parte da experiência.
A viagem continua mesmo quando nada extraordinário acontece
Nem todo dia termina com uma praia inesquecível ou uma história para contar.
Alguns terminam depois de um almoço simples, uma caminhada curta e uma longa viagem de ônibus até a próxima cidade. E ainda assim podem ser dias importantes.
Viajar sozinho pelo Nordeste também é aprender que uma boa viagem não é feita apenas de momentos extraordinários. Ela é construída pelos intervalos entre eles: pelas esperas, pelos deslocamentos, pelas manhãs silenciosas e pelas pequenas descobertas que dificilmente aparecem nas fotografias.
Isso não é um problema. Lembre-se, foi uma escolha que você fez. Aproveite.
