Quando se fala em litoral sul da Bahia, quase todo roteiro termina nos mesmos nomes: Porto Seguro, Trancoso e Caraíva. O problema é que essa concentração de atenção faz muita gente atravessar uma das faixas mais bonitas do estado sem parar em lugar nenhum.
Entre Ilhéus e o extremo sul baiano existe um litoral de praias extensas, Mata Atlântica preservada e vilas que continuam funcionando muito mais em torno da pesca do que do turismo. Este roteiro de 8 dias parte de Salvador e desce pela costa fazendo paradas em Serra Grande, na Península de Maraú, em Itacaré e em Cumuruxatiba — destinos que raramente aparecem juntos em um mesmo itinerário e que ajudam a conhecer uma Bahia menos óbvia. A viagem de mochilão permite conhecer lugares improváveis e que valem a pena.
A lógica do roteiro
O percurso segue sempre no sentido sul, evitando retornos desnecessários. A ideia é simples: começar em uma vila pequena cercada por Mata Atlântica, passar por praias preservadas da Península de Maraú, usar Itacaré como base estratégica e terminar em Cumuruxatiba, onde o ritmo fica ainda mais lento.
Todos os deslocamentos podem ser feitos de ônibus e vans locais, sem necessidade de carro alugado.
Dias 1 e 2 — Serra Grande
Serra Grande fica no município de Uruçuca, entre Ilhéus e Itacaré. O acesso mais prático é pegar um ônibus de Salvador para Ilhéus (cerca de 6 horas) e, de lá, seguir de van por aproximadamente 1 hora até a vila.
O que faz Serra Grande valer a parada é a combinação rara de praia quase vazia com Mata Atlântica muito preservada. O Mirante de Serra Grande oferece uma vista impressionante da BA-001, com quilômetros de litoral sem ocupação urbana.
A praia principal é longa, com ondas constantes e espaço de sobra para caminhar sem encontrar grandes estruturas comerciais. Para quem gosta de natureza, vale separar algumas horas para conhecer trilhas da região e observar como a floresta chega praticamente até a areia.
A vila tem pousadas simples, pequenos restaurantes e um clima de interior litorâneo que contrasta bastante com os destinos mais famosos da Bahia.
Dias 3 e 4 — Península de Maraú
O segundo trecho leva o viajante até Barra Grande, principal vila da Península de Maraú. O deslocamento exige conexão por Ilhéus ou Camamu, dependendo da disponibilidade de transporte no dia da viagem.
Apesar de já receber visitantes, Barra Grande ainda mantém características de vila de pescadores. Pela manhã, é comum ver barcos retornando do mar enquanto moradores organizam o pescado do dia.
O grande diferencial está nas praias ao redor. A Praia de Algodões, por exemplo, tem falésias baixas, água transparente e muito menos movimento do que a qualidade da paisagem faria imaginar. É o tipo de lugar onde ainda dá para caminhar longas distâncias sem encontrar beach clubs ou fileiras de quiosques.
Outro programa interessante é explorar a Baía de Camamu em passeios de barco organizados por operadores locais. As embarcações visitam pequenas ilhas, manguezais e comunidades ribeirinhas que dificilmente aparecem nos roteiros tradicionais do estado.
Dias 5 e 6 — Itacaré como base estratégica
Itacaré é o destino mais conhecido deste roteiro, mas aqui ela funciona principalmente como base para explorar a Costa do Cacau e organizar o deslocamento para o extremo sul.
As praias urbanas — Resende, Tiririca, Costa e Ribeira — podem ser visitadas a pé por uma trilha costeira sombreada pela Mata Atlântica. O percurso já vale pela paisagem, mesmo para quem não pretende passar o dia inteiro na praia.
Se houver tempo, vale escolher uma praia um pouco mais afastada, como Engenhoca ou Havaizinho, que costumam ser mais tranquilas do que as áreas centrais.
O centro de Itacaré também merece algumas horas. A cidade ainda preserva casarões do período do cacau e uma vida local que vai além do turismo. No fim da tarde, a Rua Pedro Longo fica movimentada, mas sem a sensação de cenário artificial comum em alguns destinos muito explorados.
Dias 7 e 8 — Cumuruxatiba
Cumuruxatiba é o encerramento ideal do roteiro. A vila fica no município de Prado, no extremo sul da Bahia, e é acessível por ônibus a partir de Teixeira de Freitas.
Aqui o ritmo muda de vez. As ruas são de areia, os barcos ficam puxados na praia e muitos restaurantes montam o cardápio de acordo com o peixe que chegou naquele dia.
A principal atração é a própria paisagem: praias extensas, falésias, recifes e quase nenhuma ocupação na beira-mar. A Barra do Cahy é o ponto mais especial da região, com encontro de rio e mar, vegetação preservada e uma sensação de isolamento difícil de encontrar em outros trechos do litoral baiano.
Quem quiser explorar mais pode seguir até a Praia do Moreira, conhecida pelas piscinas naturais que aparecem na maré baixa.
Cumuruxatiba é um lugar para desacelerar. Depois de vários dias de estrada, a melhor experiência costuma ser simplesmente caminhar sem rumo pela praia, observar o movimento dos pescadores e deixar o tempo passar sem pressa.
Como organizar o transporte
As cidades maiores — Salvador, Ilhéus e Teixeira de Freitas — têm boa oferta de ônibus interestaduais. Já os trechos para as vilas dependem principalmente de vans regionais.
A melhor estratégia é confirmar cada deslocamento na pousada da noite anterior. Os moradores costumam ter informações mais atualizadas, especialmente sobre horários de vans e conexões locais.
Ilhéus funciona como o principal ponto de redistribuição do roteiro. Sempre que surgir dúvida sobre como seguir viagem, provavelmente será por lá que a conexão será resolvida.
Vale a pena fazer esse roteiro?
Se a ideia é conhecer os destinos mais famosos da Bahia, provavelmente não. Trancoso e Caraíva continuam sendo excelentes escolhas e já têm artigos próprios no blog.
Este roteiro faz sentido para quem quer justamente o contrário: descobrir o litoral que fica entre Salvador e Porto Seguro e que a maioria das pessoas atravessa sem parar. Serra Grande, Maraú e Cumuruxatiba mostram uma Bahia mais silenciosa, com menos estrutura turística e muito mais espaço para caminhar, conversar com moradores e sentir o ritmo das comunidades costeiras.
No fim dos 8 dias, a sensação é de ter conhecido um litoral que ainda não foi totalmente moldado para o turismo — e essa é justamente a parte mais valiosa da viagem.




