Pular para o conteúdo

O que muda quando o viajante troca o ônibus pelos pedais entre Recife e Porto de Galinhas

Quem viaja de Recife para Porto de Galinhas normalmente resolve a questão em poucas horas. Pega um ônibus, um transporte compartilhado ou outro meio de deslocamento e chega ao destino para começar as férias.

Mas existe outra possibilidade.

Em vez de tratar Porto de Galinhas como o único momento importante da viagem, é possível separar alguns dias para chegar até lá de bicicleta. Não necessariamente para transformar as férias em um desafio esportivo. A proposta pode ser bem diferente: percorrer o litoral sul de Pernambuco devagar e, depois, passar alguns dias em Porto de Galinhas sem compromisso com grandes deslocamentos.

Gosto dessa combinação porque ela junta dois estilos de viagem que parecem opostos. Primeiro, dias de movimento, estrada e pequenas paradas. Depois, alguns dias em um destino onde você pode simplesmente ficar.

O objetivo continua sendo Porto de Galinhas. A diferença é que, desta vez, você não vai diretamente para lá.

Porto de Galinhas pode ser o destino, não necessariamente o começo da viagem

Existe uma tendência de pensar que uma viagem precisa seguir um único ritmo. Ou você escolhe uma experiência mais ativa, com deslocamentos frequentes, ou reserva dias para descansar.

Mas não há motivo para escolher apenas um dos dois.

Um roteiro entre Recife e Porto de Galinhas pode começar com dois ou três dias de bicicleta e terminar com outros dias aproveitando o destino. Depois de passar algum tempo pedalando, a ideia de ficar algumas manhãs sem horário e conhecer Porto de Galinhas com calma ganha até outro sentido.

Para mim, essa é uma das melhores razões para incluir a bicicleta em uma viagem: ela não precisa dominar todo o roteiro. Pode ocupar apenas um trecho.

Primeiro dia: sair de Recife sem transformar a viagem em uma prova

O primeiro objetivo não deveria ser pedalar o máximo possível. Para uma viagem dividida em etapas, algo em torno de 25 a 30 quilômetros já pode ser suficiente para começar.

A saída de Recife tem uma vantagem importante. A cidade possui uma extensa estrutura cicloviária e a Avenida Boa Viagem está entre os trechos conhecidos por quem utiliza bicicleta na Zona Sul. Dados recentes disponibilizados pela Prefeitura do Recife mostram que a cidade conta com uma ampla rede de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas.

A partir daí, a viagem pode seguir em direção a Piedade, Candeias e outros pontos do litoral sul, sempre com o cuidado de escolher o percurso conforme as condições encontradas.

Aqui começa uma diferença importante entre viajar de bicicleta e simplesmente pegar a estrada para chegar rápido.

Você começa a perceber a transição entre os bairros. A cidade não termina de repente. O movimento muda, os prédios começam a desaparecer em alguns trechos e o percurso passa a exigir mais atenção à estrada e à direção que você escolheu seguir.

A dica é pensar bem em qual cidade parar para pernoitar. Escolha aquela que te permitirá curtir o resto do dia, em que poderá aproveitar para fazer algo diferente. A liberdade é toda sua.

Segundo dia: escolher o caminho faz parte da viagem

É no segundo dia que essa proposta começa a se afastar da ideia tradicional de “ir de Recife a Porto de Galinhas”.

A rota mais curta não é necessariamente a mais interessante para quem está viajando de bicicleta. E também não existe uma única alternativa que possa ser recomendada para todos.

Relatos de ciclistas que já percorreram a região mostram experiências por diferentes áreas do litoral sul, incluindo trechos próximos a Paiva e Itapuama, além de caminhos que se afastam das vias mais movimentadas. Essas experiências, porém, também registram problemas como trechos sem acostamento e condições ruins de pavimento.

O ideal é estudar possibilidades antes da viagem, verificar mapas atualizados e, principalmente, entender as condições atuais das estradas. Um caminho tranquilo em determinado período pode estar em obras meses depois. Um trecho de terra pode ficar difícil após dias de chuva.

Para quem não tem pressa, o segundo dia pode ter aproximadamente 30 quilômetros e terminar em alguma localidade onde seja possível descansar antes da chegada final.

Não há problema nenhum em pedalar menos do que o previsto. Se um trecho for ruim, se a chuva aparecer ou se você encontrar um lugar onde vale a pena ficar mais tempo, o roteiro pode mudar.

Essa é justamente uma das vantagens de não tentar fazer todo o percurso em um único dia.

A bicicleta obriga você a conhecer o que existe entre os destinos

Quando viajamos de ônibus, normalmente pensamos no horário da partida e no horário da chegada.

De bicicleta, surgem outras perguntas.

Onde vale a pena parar? Onde encontrar água? Há algum lugar para almoçar antes do próximo trecho? É melhor continuar ou procurar uma hospedagem?

Essas questões fazem com que a viagem deixe de ser organizada apenas em torno dos destinos famosos.

Você pode passar por lugares que provavelmente nunca colocaria em um roteiro convencional. Pode parar em uma cidade que, para quem está de carro, seria apenas uma placa na estrada. Pode encontrar uma praia pequena e decidir ficar ali por uma hora simplesmente porque não precisa seguir o ritmo de nenhum grupo.

Não significa romantizar cada quilômetro. Alguns trechos serão cansativos e outros podem ser pouco interessantes. Mas essa também é uma diferença entre fazer o caminho e apenas atravessá-lo.

Terceiro dia: chegar a Porto de Galinhas

Se a proposta for dividir o trajeto em três dias, o último trecho pode ser mais curto.

Uma alternativa é chegar à região de Porto de Galinhas sem transformar o horário de chegada em uma meta rígida. A entrada no destino pode ser apenas o encerramento da primeira parte das férias.

E aí acontece algo que considero interessante.

Depois de dois ou três dias de deslocamento, você não precisa continuar pedalando para provar nada. A bicicleta pode ficar parada.

Porto de Galinhas entra como a segunda parte da viagem.

Você pode passar os próximos dias caminhando, indo à praia, conhecendo outras áreas da região ou simplesmente ficando mais tempo na hospedagem. Depois de uma sequência de dias carregando a própria bagagem e decidindo onde parar, alguns dias sem grandes planos podem ser exatamente o que faltava no roteiro.

Não é preciso transformar a viagem em uma expedição

Um erro seria imaginar que esse roteiro exige equipamento profissional, condicionamento de atleta ou centenas de quilômetros percorridos.

A proposta pode ser muito mais simples.

Dividir o trajeto em etapas de aproximadamente 25 a 35 quilômetros permite que o viajante carregue menos pressão sobre a distância diária. Ainda assim, é necessário fazer uma avaliação honesta do próprio condicionamento físico e da bicicleta utilizada.

Também vale pensar na bagagem.

Uma bicicleta carregada com tudo o que será usado durante a viagem se comporta de maneira diferente de uma bicicleta usada em passeios curtos. Antes de sair, é recomendável testar a distribuição do peso, verificar pneus, freios e corrente e fazer pequenos percursos com a bagagem.

Outra questão importante é não depender de uma rota desenhada anos atrás. A região entre Recife e Porto de Galinhas possui trechos urbanos, áreas de circulação intensa e diferentes condições de pavimento. Informações recentes e a observação do caminho continuam sendo parte essencial do planejamento.

A viagem pode ter dois ritmos

Talvez essa seja a parte que mais gosto nessa ideia.

Você pode começar a viagem de uma forma e terminá-la de outra.

Pedalar durante alguns dias até Porto de Galinhas não significa que toda a viagem precise continuar nesse ritmo. Pelo contrário. A bicicleta pode ser o elemento que cria contraste.

Nos primeiros dias, existe a expectativa da estrada, da distância e das paradas. Depois, Porto de Galinhas oferece outra experiência.

No fim, você não precisa decidir se prefere uma viagem ativa ou dias de descanso.

Pode ter os dois.

Porto de Galinhas continua sendo o destino que você queria conhecer. Mas o trajeto deixa de ser apenas a parte que precisava ser vencida para chegar até lá. Alguns quilômetros antes da praia, a viagem já começou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.